Boa noite,
Tudo foi minuciosamente planejado. Escolhi essa saudação à dedo. Ora, se meu propósito é entregar minhas letras ao acaso, eu não poderia ter a certeza segura dos emitentes instantâneos. Eu permiti me enfiar no seu armário e supor em carta o momento em que você me encontraria. Então agora acredito que não seja de manhã, aquele turno fugaz em que você rola em diversos panos (lençóis, fronhas, camisas-tapa-olhos…) e espera a hora passar em cochilos que não te descansam porque você não se entrega a nada. Imagino seu sono te esperando de braços abertos enquanto, em vigília, você diz (totalmente mudo), que os sonhos não te alcançam (os literais, coitados, muito menos). A tarde você busca se decidir entre afazeres que não te fazem nada, que já não te inspiram e te estendem num tédio de um prédio qualquer. Não, agora deve ser noite, o ápice da sua permanência. Sua janela deve estar aberta ainda que chova porque você tem uma estranha disposição para abrí-la em qualquer oportunidade (quase uma compensação pro seu fechar interno). Talvez tenha uma luz amarela aconchegante porque ela inspira um repouso. Essa meia-sombra diagonal e crescente tem cheiro de solidão.
Gosto dessa fantasia de te enxergar nesse instante, ela é um estar aí enquanto você lê. Adivinhar sua roupa, ver seus pêlos faciais que tanto te escondem (de mim?) e acompanhar seus olhos de um verde apressado percorrendo a tinta me aproxima da distância que eu tracei por medo. Eu me entreguei toda e me sobraram restos, mas a sua recusa trava o meu “mais”. Eu sou excessos, arestas e pra te deixar eu preciso esgotar nós dois. Eu jamais pecarei pelo não dito, por isso, como citado, essa é uma carta de amor.
E para findar a maior introdução necessária já escrita, digo que escolhi carta para te livrar da obrigação da resposta. Sem uma tecnologia que me diga o dia em que você encontrou, fico com o benefício da dúvida. Você pode jamais ter achado esse envelope e eu sem ter me exposto mais uma vez em vão. Fique à vontade para fingir que nunca soube desse pedaço meu em papel preto e branco. A recusa que eu nunca soube que recebi.
Eu amo você.
Acho uma pena que o amor talvez tenha para você uma nuance racional que o contradiga. Você provavelmente precisa de um porquê ou uma segurança para o crer no amor e faz dele um acordo com a sua consciência. Por ser, por excelência, indefinível e imensurável, eu não precisaria me provar amante, mas por conhecer suas negativas, temo que pense que amo outro homem, uma projeção encantada. Digo o que te amo, o porquê te amo é indizível.
Amo a forma como você solta um riso preso. É quase um suspiro e deve ter só uma nota. É rápido e tem som de respiração apressada, um soar. Você ri como quem pede desculpas por ter encontrado a graça.
Amo como você estala beijos aleatórios. Isso significa que em qualquer momento posso ser sobressaltada com barulhinhos labiais que me inspiram uma meiguice simples.
Amo sua ponderação e capacidade de se supor errado, mesmo com a quase certeza de estar certo. Você não poupa pedidos de desculpa, eu amo profundamente sua humilde capacidade de não se impor dono de nada, nem muito menos da verdade.
Amo como você adivinha quando quero dizer algo, ainda que haja vezes que, na verdade, eu nem queria. Seu “fala pra mim” tem confortável tom de afeto. Seu interesse navega minhas travas, deságua meus casos, eu rio em contos.
Amo como você contrapõe as minhas certezas e nega as minhas verdades quase que por capricho. Não deixa minhas contradições passarem, me leva ao óbvio, passeia pela minha passionalidade, me coloca no rumo do real.
Eu amo, e amo desde muito, o inesperado que você me entrega sempre que eu te aguardo. Não cumpre expectativas, não segue roteiros, surpreende em gestos e me diz das faltas todas que parecem me preencher. É estranho?
Amo como não sei o que você vai achar das minhas linhas, amo que você não cuida do meu ego, amo quando você diz que pensa em ir e fica.
Eu amo ter aprendido muito, inclusive a importância de não saber se ou como sou amada.
Eu não amo diversas coisas que talvez nos separem tão em breve, mas amo que apesar disso eu permaneço me supondo amante. Ou talvez seja por causa disso.
Amo todas as chacoalhadas que você dá em mim.
Essa carta tem um forte tom de autoamor porque ela está em suas mãos porque eu quis, senti que precisava e merecia. Possivelmente você não (pense que) mereça.
Amo apesar disso também.
Um beijo apaixonado e lindo (como seus olhos, que não digo que amo porque adoro inaugurar sentidos novos em você),
Giovanna.
19/03/2019
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