quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Sina saudade

Com a vista embaçada, a menina tateou a mesa e colocou os óculos que imediatamente escorregaram por seu pequeno nariz. Empurrou com o indicador a armação, mas ela voltou quase que para a mesma posição em desalinho. Viu alguma pouca luz do dia, já há muito raiado, entrar com dificuldade pela janela inutilmente larga, pois dava para um muro alto e cinza. Era sábado.

Coçou os olhos estrábicos e a armação dançou em seu rosto inchado. Dormira muito, por mais que a ansiedade da véspera estivesse constantemente alimentando sua esperança juvenil tirando qualquer sossego.

Correu para a ante sala e se sentou na cadeira da mesinha do telefone fixo. Ficou a enrolar a espiral do fio por seu dedo gordo. Esperou.

Poucos minutos depois, que pareceram décadas, a menina escorregou o corpo até que seus pés tocassem o chão frio. Ergueu-se num impulso. Passou pela sala onde tropeçou na perna que seu primo mais velho deixara lá de propósito. Não resmungou como de costume. Foi até o quarto da mãe e ficou olhando ela pinçar sua grossa e erguida sobrancelha negra enquanto olhava fixamente para o espelho redondo, como se não desse por nenhuma presença. Naquele dia, seu pai não ligou.

***

Os olhos de sua mãe, firmes, impassíveis, agora estavam vermelhos e inchados como poucas vezes vira em sua vida. Fortalezas sempre tão inabaláveis, eram agora sinal de que as coisas iam mal. Quis perguntar, teve receio. Logo a própria mãe viria contar entre soluços que o tio da garota, seu irmão mais novo e mais querido, estaria embarcando para um estado distante e que lá passaria a viver.

Brasil, cruel país continente, a vida levou seu tio numa noite etérea. Toda a família chorava em prantos no aeroporto quase vazio. A menina que crescera na mesma casa que ele, conhecia da saudade seu acre sabor, queria chorar mais que os outros. E chorou. 

***

A menina batucava impacientemente os dedos na mesa da cantina enquanto o rapaz abraçava sua mochila preta. Ele possuía um cabelo louro tão liso que algumas mechas caiam sobre a testa. Seus olhos verdes se espremeram num sorriso escancarado, seu rosto estava vermelho por riso, ou por ser fácil demais ficar assim alguém tão branco.

E ele repetia o nome da menina uma, duas, cinco vezes. Gostava de vê-la irritada, ou talvez gostasse do nome dela.

Ele vivia num mundo todo autoprotetor e ela gostava de vez ou outra se sentir parte. Contudo, em sua maioria, se sentia incomodamente nervosa por não conseguir decifrar o órgão palpitante por trás daquelas piadas.

Tão nervosa por brincadeiras tolas, ainda assim ela sentia uma suave segurança vil.

Se esvairia.

Naqueles corredores cheios, o rapaz louro fazia as coisas não parecerem tão hostis. Era como se o centro religioso que ela visitava aos sábados e se retirava nos carnavais, estivessem contidos naquelas brincadeiras infantis. Amenizava o ambiente duro da universidade.

Um dia ele a avisou que iria mudar de curso, de estado, de rumo.

Meses depois, os corredores da faculdade estavam mais vazios, porem era maior o cheiro da solidão e dos cigarros.

***


Em três meses, provavelmente, seu namorado iria ser convocado para um concurso num estado vizinho. A escolha era tão simples quanto avassaladora: romper ou alargar a sua tolerância à distância.

Sina, ela pensou, é possível superar.

A menina atravessou rodoviárias, dormiu entre todos os buracos das estradas e esteve. Cumpriu o que se propôs: esperou telefonema, chorou no aeroporto, percorreu todos os corredores sozinha.

Compreendeu que o fim da espera depende de que uma outra chegue.

Nenhum deles voltou.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Prosa do dia que você não foi

Você me deixa ao som das nossas músicas favoritas.  

Diz que acha que o melhor dói 

e não é justo,  

nem firme,  

nem claro,  

nem bom.  

Fica enquanto dirige de volta pra casa.  

Seus olhos não concordam na boca 

E é incoerente que tanta maciez 

traduza a aspereza da nossa dissolução. 

Só está em verso pra que você veja 

a nossa poesia. 

Inútil pedir que você nos ouça 

e eu te peço 
garantindo, assim, a sua partida. 

Até que você volte a me chamar 
com aqueles vocativos íntimos.
que são a marca

de que você permaneceria.


segunda-feira, 31 de julho de 2023

Sua ausência ocupa todos os meus espaços

 Não há um só turno do dia em que sua ausência não se manifeste.

É tolo pensar que a falta é um vazio, um buraco. Sua ausência é um câncer que punge, cresce, ocupa, traz à tona e contorna meu corpo todo de uma dor pesada.

Seria ainda mais ingênuo sugerir que essa manifestação cumprida se faça todos os dias, porque não há um só turno do sol no céu que não testemunhe minhas lembranças. 

Você aparece de manhã quando rolo na cama que sempre foi vazia, mas que te prometia. Você caminha comigo a tarde até a academia que nunca entramos juntos, mas que por você eu faria. Você me acorda de madrugada pra ir ao banheiro e me lembra de lavar as mãos que não vão te tocar ao voltar pra cama.

Sua ausência não pode ser uma fenda oca porque ela invade meu léxico nas escolhas dos danados adjetivos, se põe na porta de todos os museus,  desenha suas linhas em todo litoral de São Paulo ao nordeste. Sua presença ausente ordenha meu choro que não passa com os meses, vigia minha dieta, orquestra minhas transas, aumenta meus treinos, pergunta minhas novidades, desencaixa os meus beijos.

Revejo diariamente nossa última conversa como uma covarde autopunição. Para que eu sabia da sua capacidade de substituir minha falta por outras, para que eu não me esqueça de que minha ida é um pequeno vão enquanto sua ausência ocupa todos os meus espaços.



terça-feira, 11 de julho de 2023

Sem seu colo eu me farto em falta de amor

 Essa noite sonhei com o tom que sua pele só tem sob meus dedos. Minha mão corria a base do seu dorso nu com uma ternura contraditoriamente urgente. A maciez da sua negativa estava estampada em seus mamilos projetados pra outra direção. Eu apoiei meu ouvido nas suas costas e alisei sua barriga pra que a fricção exalasse seu cheiro. Arfei. Você se mexia lentamente enquanto eu te agarrava, colando meu corpo no seu não. Talvez você bebesse água enquanto eu secava sua presença. Seu braços não estavam, você não estava.

Era eu que te procurava.

Acordei sem achar.