Ainda hoje não sei o que o divertia tanto. Fosse por como eu era cômica no meu típico exagero ou por entusiasmo de me colocar tão absolutamente vulnerável, o som do seu delírio me fascinava.
- Fecha os olhos. - Ele pediu e eu desconfiei por receio de parecer entregue.
Certamente eu faria o que ele quisesse porque pouca coisa me importava mais que aqueles minutos antes do jantar ficar pronto.
- Você vai fazer cosquinha.
- Não vou, eu prometo.
- Eu não confio em você.
Contudo, eu confiava. Algo em sua impossibilidade de ficar sério me conquistava ao passo que me divertia. Sua falsa incredulidade ofendida me ganhou porque era mesmo um absurdo alguém não ceder pra ele.
Fechei os olhos.
No cinza incerto, eu planei. Estava em silêncio a espera de que não vislumbrar nenhuma imagem esperançosa me trouxesse alguma segurança vã, mas não havia onde me apoiar que não fosse nele. Por mais que eu apenas sacudisse a perna esquerda de maneira rítmica e tentasse mentalmente sugar dele a reação, quase me arrependo por não ter ponderado.
Posso agora séria voltar no tempo e sussurrar para mim mesma, tão sorridente ali, que dois meses depois seria nova espera no escuro, mas agora aflita, sem perspectiva de sequência?
Eu diria que o timbre do seu humor me faltaria e que mais uma vez eu me sentiria patética por levar à serio o que certamente ele nem se recorda.
Sem saber, eu escancaradamente sorria. Vez ou outra batia no que pudesse ser o ombro e pedia rapidez, eu tinha pressa de sentir.
E ele pedia calma.
Seu trabalho exige muito, ele não tem tempo, eu do presente poderia sugerir em dadiva, como se pudesse fazer que minha passada emoção se esvaísse. Colocaria a razão bem nítida: você não o conhece.
E omitiria.
Esconderia o momento em que ele relatou sobre as origens de suas cicatrizes enquanto eu passava o dedo em cada uma delas sentindo uma ânsia quase cega de cuidar.
Também não diria que posteriormente fiz de tudo pra estar no meio do salão esquecendo de disfarçar qualquer coisa pelo simples prazer de, enquanto dançávamos abraçados, enfiar o rosto no seu ombro e inspirar tudo que eu pudesse do seu cheiro, decorar.
Não, eu não diria nada disso. Contaria na certa todos os meus medos depois que eu não pudesse mais andar alguns corredores e ver sua maneira agitada de se parecer comigo em certos aspectos. Ou diria o quão meus sentimentos parecem tolos depois que ele não se sentasse mais ao meu lado entrelaçando sua mão na minha e tombando sua cabeça eu meu ombro, suplicando o que eu mais tenho a ofertar: afeto.
Por fim, só caberia lembrar que a grande possibilidade de rejeição faz sombra nos meus dias e que tudo parece uma grande loucura da minha cabeça inventiva.
- É pra me irritar, está fazendo hora com a minha cara! - Eu disse, a poucos milímetros de abrir os olhos novamente e, assim, a alguns passos de evitar algumas ilusões e começar a deduzir o que a razão só me diria depois.
Então ele riu mais um pouco, se inclinou para o lado e beijou o meu rosto.
Meu coração vibrou por surpresa, abri os olhos e o abracei como num salto.
Talvez tenha valido a pena. Não por verdade, por correspondência ou resultados sólidos, mas porque naquele momento descontraído e carinhoso, era o que de mais sincero eu poderia oferecer. E então pouco me importava o que viria dois meses depois.