domingo, 29 de junho de 2014

Presente de um beija flor

Olho pra lembranças do passado e de ontem, meu presente. Digo: Deus, enfim, aceito o belo bom.




Que venha, então, o pássaro que carinhosamente beija e traga, flor. 




Venha a tranquilidade num estrondo de gargalhada sua absolutamente estridente que me cessa a histeria, o mal. Venha esse mesmo som de seus lábios, seus lábios aos pedaços. Tocar meus ouvidos, o som, e os lábios a ponta da orelha. 




Com calma urgente, eu quero poder sentir e dizer: eu te. Eu quero ver aqui em mim, em nós, no torpor ameno do nosso pudor sem vergonha.



Espera. Eu espero. Eu te.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Quimera

A visão cinza dos meus pés pelo corredor fazia um som de saudade. A poeira embaçava o assoalho, o rodapé, as paredes e a porta do meu antigo quarto. Entrei. Ele, obediente e silencioso, seguia meus passos como se não coubesse em si mesmo, enquanto eu, extensa, cobria todos os cômodos daquela casa.

Abri a gaveta do armário escancarado e um inseto repugnante, tonto, saiu em voo, bateu no chão, passou por ele e me avisou: era tarde. Os olhos do rapaz, enfim, mais a vontade se colocaram. Com um sorriso estreito acompanhou o animal que o ignorava empafiado.

- Mata. - Eu sugeri, tentando esconder a súplica.

Ele nada me disse. Agachou-se, observou com atenção o animal crescer de tamanho e tomar formas ainda mais torpes. Meu coração palpitou e eu quis implorar. Sua simpatia pelo monstro me assombrava, mas aquele lugar, de repente, não tão de repente, era simplesmente onde eu sonhava estar.

Levantou-se enquanto o animal se multiplicava em tamanhas formas e espécies, todas elas ascosas. Olhou nos meus olhos e toda graça que tínhamos em realidade, ali, em quimera, era seriedade que suspirava.

Eu suspirava enquanto segurava uma blusa repleta de bolor junto ao peito.

- Quantas vezes vai tentar se mudar pra mesma casa? - Ele disse enquanto empurrava uma caixa, enquanto empurrava um passado.

- É como se eu pudesse fazer de novo, fazer melhor. Eu quero salvar algo.

Ele olhou a blusa amassada que eu abraçava. Olhou nos meus olhos. Tudo dito, profundo. Não era ele.

- Resgate que te traz os mesmos vícios, que não te move de lugar.

- Que me trouxe até você. - Eu disse, enquanto desviava o olhar para os animais ao chão, correndo, apressados, silenciosamente histéricos.

- E é o mesmo que me levará embora. E eu estarei guardado em sua coleção de alegrias pequenas imersas em sofrimentos indispensáveis.

Senti imensa dor.

Concordei, e tudo ao nosso redor era um imundo confortável.

sábado, 17 de maio de 2014

Assim

Estou assim como uma caixa desforme que comporta único componente perturbado. Eu fecho meus olhos encharcados e pesa tanto essas fendas abertas... Agora cerradas. Eu escuto o soar do coração que é o meu exclusivo conteúdo maior. Ele pulsa. Ou vibra? Sou toda frenesia estática.

Ah, se eu pudesse ter recheio outro... Eu não me seria! E será que permearia assim tão sua, tão minha? Eu me perderia... No interior seu, meu amor, que é sombra pra que eu possa iluminar. Dia! Morada, luz, nova, quente, sua, minha pra que você possa repousar.
Veja, se olhe de dentro, que cor cinza tem seu miolo rijo em sua caixa sempre fria, tão bem articulada? Quanto a você, o seu, assim, o quanto pulsa, o quanto balança quando o meu assim arqueja num ansiar?

Você aí, eu estou assim sem razão porque sou sangue vivo. O meu é coração, aqui não! O seu é assim meio torpe, nem figura redonda que te favoreça... Nem o nome que rime: cé-re-bro. O meu conteúdo falha por ser errante, o seu falha por um erro. Oh, não! Como pode?

Assim. São duas caixas. Longe assim como lua e sol que não se encontram porque queimariam, ai de mim! E de você e de nós que assim tão diferentes, caixas, astros, jogo de palavras assim como nós. Jogo... Que ninguém pode vencer. Sol que não pode aquecer tanto assim. Limite que meu coração não dá e que seu miolo estabelece sem ressalvas pra mim.



Meu coração desfalece ainda mais essa caixa que sou já tão torta. É o fim?