sexta-feira, 19 de abril de 2024

Sou

Graças ao estrabismo e a uma inata pré-disposição aos sonhos, eu tenho um jeito charmoso e literalmente torto de ver a vida.
Eu sou uma pessoa necessária.
Tenho uma natural capacidade de colocar um ponto em questão, levantar uma dúvida.
Em todos os ambientes, eu me proponho a assumir o risco, enfrentar o desconhecido e traçar um novo percurso.
Tento ser justa e me responsabilizo. 
Eu me importo, eu procuro e digo, eu vejo. 
Sou bonita e tenho construído essa percepção enquanto me dispo. Dos conceitos, das imposições, dos outros e das roupas.
Eu sou sensual porque sou forte, viva, quente, mulher e sei.
Sou um escândalo preciso.
Sou seu incômodo favorito.
Eu sou difícil e absolutamente entregue.
Eu quero e, por isso, estou.
Eu sustento, banco, mantenho.
Eu desmorono firme.
Eu ainda sou muito pouco.
Eu sou outra coisa de novo.
Eu sou construção.
Permita-se a mim porque eu já estou aberta a você.
E ao mundo.

(Abril 2019)

terça-feira, 9 de abril de 2024

Falas curtas sobre o irmão menor

Não importa a idade da pedra, espera-se muito dela. Quem atira a primeira pedra não repara que, de tanto bater, já estavam ali os seus furos. 


Não se pode acariciar a pedra porque dela não se tira leite e quem com ela é fera, já estava, muito antes, ferido. 


Se no meio do caminho houver pedra, tenha piedade desse abandono. Proteja-a dos cacos dos nossos tetos de vidro.


(Outubro de 2023)

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Flertando com o desastre

Há registros de que Nietzsche disse que se você olha muito tempo para um abismo, ele te olha de volta. Às vezes eu penso na possibilidade dele ter me olhado primeiro.

De ter sido tão macio e lindo que, então, retribui a atenção e nunca mais quis deixar de ver. 

O transtorno limítrofe tem um conforto só dele. A dor toma meu corpo inteiro, preenchendo. Depois que sou toda desespero, o desastre vem e me espia. Eu olho para ele como se ele fosse só abraço. A resolução de um problema intencional. Ele começa a fazer promessas. Eu faço que acredito. Nós dois sabemos que eu não vou pular.


(maio de 2022 / editado em abril de 2024)

Seguir e perceber

 Sinto que citar e recitar nós dois se tornou nosso clichê íntimo. Seguir te percebendo é um privilégio iniciado por uma atração cuidadosamente arquitetada por destino e algoritmo. No bloco de notas dessa percepção, posso listar: um avistamento, uma dança, uma rede social, um pedido de ajuda e um encontro das nossas coincidências. 


Se eu realmente te guardasse em um caderno, seria fácil notar; o tempo das rasuras foi precedido por enredos caprichosos. Antes do descompasso, viriam os encaixes. Prévio ao desalinho, surgiriam os enlaces.


É compreensível que o hoje, com suas letras tremidas, tome toda a sua atenção para si, e você conclua que a última página já se escreveu. Contudo, espiar as páginas anteriores é irresistível quando a sorte de nós dois é tão… perceptível.


Noto que é você que faz o barulho que eu, escandalosa, ouço. Entendo que você simplesmente está e, sempre que te procuro, encontro um pouco mais de mim. Constato em todos os meus verbos que te amar me acaricia, te estranhar me desalinha, te admirar me destaca. A sua trama descreve a minha.


Contudo, é natural que as mãos se cansem de uma escrita, por fim, tensa, mas eu gostaria de marcar que embora as borrachas do desejo de permanecer manchem, elas abrem espaço para que eu planeje ainda muitas folhas de nós dois.