sexta-feira, 23 de agosto de 2024

A lenda do Estrangeiro daqui

 Dizem que sua voz tem cor marrom avermelhada e uma rouquidão vasta que faz som de língua de gato.

Suas mãos exalam o gosto da manhã do domingo em que ele se foi, voltou e segurou as minhas (ainda que escorregando de suor). O Estrangeiro daqui tem firmeza tão sincera quanto livre

Ao que sei, ele promete distâncias enquanto se entrega tão perto que eu descreveria cada nota do seu hálito. Dizem que seu cheiro tem poder de me tocar tranquila, me deixar inteira.

O Estrangeiro daqui colhe narrativas pelo mundo com a ponta da língua e, quando ela toca seu lábio superior, é porque tem mais. Depois de coletá-las, ele volta pro ninho.

Em uma noite de nascer do sol, nós nos reconhecemos. Nem que fosse pra dar emoção ao enredo, não houve mistério. Ao contrário, as horas se curvaram e caminhamos por elas com presença. Eu vi que ele era forasteiro na mesma medida que tudo nele era nativo. 

Um de seus encantos, eu soube, é me transportar pra si. Eu, cheia de raízes, me fiz passageira e fui. Para me nutrir contadora de histórias, vi por ele narrativas tantas que imaginei culinárias, engoli florestas, olhei barulhos, pilotei ruínas. Viajei breve, intensa, entregue. Tive notícias do privilégio que foi ser eu e ele. A gente. 

A gente suporta.

A gente quer.

A gente gosta.

A gente supera.

Por caráter de lenda, não há começo. Dessa mesma natureza, por sorte, me confoto. 

A gente não tem fim.


 

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Sou

Graças ao estrabismo e a uma inata pré-disposição aos sonhos, eu tenho um jeito charmoso e literalmente torto de ver a vida.
Eu sou uma pessoa necessária.
Tenho uma natural capacidade de colocar um ponto em questão, levantar uma dúvida.
Em todos os ambientes, eu me proponho a assumir o risco, enfrentar o desconhecido e traçar um novo percurso.
Tento ser justa e me responsabilizo. 
Eu me importo, eu procuro e digo, eu vejo. 
Sou bonita e tenho construído essa percepção enquanto me dispo. Dos conceitos, das imposições, dos outros e das roupas.
Eu sou sensual porque sou forte, viva, quente, mulher e sei.
Sou um escândalo preciso.
Sou seu incômodo favorito.
Eu sou difícil e absolutamente entregue.
Eu quero e, por isso, estou.
Eu sustento, banco, mantenho.
Eu desmorono firme.
Eu ainda sou muito pouco.
Eu sou outra coisa de novo.
Eu sou construção.
Permita-se a mim porque eu já estou aberta a você.
E ao mundo.

(Abril 2019)

terça-feira, 9 de abril de 2024

Falas curtas sobre o irmão menor

Não importa a idade da pedra, espera-se muito dela. Quem atira a primeira pedra não repara que, de tanto bater, já estavam ali os seus furos. 


Não se pode acariciar a pedra porque dela não se tira leite e quem com ela é fera, já estava, muito antes, ferido. 


Se no meio do caminho houver pedra, tenha piedade desse abandono. Proteja-a dos cacos dos nossos tetos de vidro.


(Outubro de 2023)

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Flertando com o desastre

Há registros de que Nietzsche disse que se você olha muito tempo para um abismo, ele te olha de volta. Às vezes eu penso na possibilidade dele ter me olhado primeiro.

De ter sido tão macio e lindo que, então, retribui a atenção e nunca mais quis deixar de ver. 

O transtorno limítrofe tem um conforto só dele. A dor toma meu corpo inteiro, preenchendo. Depois que sou toda desespero, o desastre vem e me espia. Eu olho para ele como se ele fosse só abraço. A resolução de um problema intencional. Ele começa a fazer promessas. Eu faço que acredito. Nós dois sabemos que eu não vou pular.


(maio de 2022 / editado em abril de 2024)

Seguir e perceber

 Sinto que citar e recitar nós dois se tornou nosso clichê íntimo. Seguir te percebendo é um privilégio iniciado por uma atração cuidadosamente arquitetada por destino e algoritmo. No bloco de notas dessa percepção, posso listar: um avistamento, uma dança, uma rede social, um pedido de ajuda e um encontro das nossas coincidências. 


Se eu realmente te guardasse em um caderno, seria fácil notar; o tempo das rasuras foi precedido por enredos caprichosos. Antes do descompasso, viriam os encaixes. Prévio ao desalinho, surgiriam os enlaces.


É compreensível que o hoje, com suas letras tremidas, tome toda a sua atenção para si, e você conclua que a última página já se escreveu. Contudo, espiar as páginas anteriores é irresistível quando a sorte de nós dois é tão… perceptível.


Noto que é você que faz o barulho que eu, escandalosa, ouço. Entendo que você simplesmente está e, sempre que te procuro, encontro um pouco mais de mim. Constato em todos os meus verbos que te amar me acaricia, te estranhar me desalinha, te admirar me destaca. A sua trama descreve a minha.


Contudo, é natural que as mãos se cansem de uma escrita, por fim, tensa, mas eu gostaria de marcar que embora as borrachas do desejo de permanecer manchem, elas abrem espaço para que eu planeje ainda muitas folhas de nós dois.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Secreto

 Sentir saudades de você ainda é um pacto solitário. Meu dueto despareado. Minha ponte com a distância.

Um consolo é imaginar que nos nossos silêncios nos conectamos.

Talvez apenas muda eu te tenha em perfeita sintonia.

E daqui, sem tocar seu nome, sem cumprimentar seus dias, sem saber seus pelos, eu sigo te guardando.

Só pra mim.

Sem você, como sempre estive.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Sina saudade

Com a vista embaçada, a menina tateou a mesa e colocou os óculos que imediatamente escorregaram por seu pequeno nariz. Empurrou com o indicador a armação, mas ela voltou quase que para a mesma posição em desalinho. Viu alguma pouca luz do dia, já há muito raiado, entrar com dificuldade pela janela inutilmente larga, pois dava para um muro alto e cinza. Era sábado.

Coçou os olhos estrábicos e a armação dançou em seu rosto inchado. Dormira muito, por mais que a ansiedade da véspera estivesse constantemente alimentando sua esperança juvenil tirando qualquer sossego.

Correu para a ante sala e se sentou na cadeira da mesinha do telefone fixo. Ficou a enrolar a espiral do fio por seu dedo gordo. Esperou.

Poucos minutos depois, que pareceram décadas, a menina escorregou o corpo até que seus pés tocassem o chão frio. Ergueu-se num impulso. Passou pela sala onde tropeçou na perna que seu primo mais velho deixara lá de propósito. Não resmungou como de costume. Foi até o quarto da mãe e ficou olhando ela pinçar sua grossa e erguida sobrancelha negra enquanto olhava fixamente para o espelho redondo, como se não desse por nenhuma presença. Naquele dia, seu pai não ligou.

***

Os olhos de sua mãe, firmes, impassíveis, agora estavam vermelhos e inchados como poucas vezes vira em sua vida. Fortalezas sempre tão inabaláveis, eram agora sinal de que as coisas iam mal. Quis perguntar, teve receio. Logo a própria mãe viria contar entre soluços que o tio da garota, seu irmão mais novo e mais querido, estaria embarcando para um estado distante e que lá passaria a viver.

Brasil, cruel país continente, a vida levou seu tio numa noite etérea. Toda a família chorava em prantos no aeroporto quase vazio. A menina que crescera na mesma casa que ele, conhecia da saudade seu acre sabor, queria chorar mais que os outros. E chorou. 

***

A menina batucava impacientemente os dedos na mesa da cantina enquanto o rapaz abraçava sua mochila preta. Ele possuía um cabelo louro tão liso que algumas mechas caiam sobre a testa. Seus olhos verdes se espremeram num sorriso escancarado, seu rosto estava vermelho por riso, ou por ser fácil demais ficar assim alguém tão branco.

E ele repetia o nome da menina uma, duas, cinco vezes. Gostava de vê-la irritada, ou talvez gostasse do nome dela.

Ele vivia num mundo todo autoprotetor e ela gostava de vez ou outra se sentir parte. Contudo, em sua maioria, se sentia incomodamente nervosa por não conseguir decifrar o órgão palpitante por trás daquelas piadas.

Tão nervosa por brincadeiras tolas, ainda assim ela sentia uma suave segurança vil.

Se esvairia.

Naqueles corredores cheios, o rapaz louro fazia as coisas não parecerem tão hostis. Era como se o centro religioso que ela visitava aos sábados e se retirava nos carnavais, estivessem contidos naquelas brincadeiras infantis. Amenizava o ambiente duro da universidade.

Um dia ele a avisou que iria mudar de curso, de estado, de rumo.

Meses depois, os corredores da faculdade estavam mais vazios, porem era maior o cheiro da solidão e dos cigarros.

***


Em três meses, provavelmente, seu namorado iria ser convocado para um concurso num estado vizinho. A escolha era tão simples quanto avassaladora: romper ou alargar a sua tolerância à distância.

Sina, ela pensou, é possível superar.

A menina atravessou rodoviárias, dormiu entre todos os buracos das estradas e esteve. Cumpriu o que se propôs: esperou telefonema, chorou no aeroporto, percorreu todos os corredores sozinha.

Compreendeu que o fim da espera depende de que uma outra chegue.

Nenhum deles voltou.