sexta-feira, 23 de agosto de 2024

A lenda do Estrangeiro daqui

 Dizem que sua voz tem cor marrom avermelhada e uma rouquidão vasta que faz som de língua de gato.

Suas mãos exalam o gosto da manhã do domingo em que ele se foi, voltou e segurou as minhas (ainda que escorregando de suor). O Estrangeiro daqui tem firmeza tão sincera quanto livre

Ao que sei, ele promete distâncias enquanto se entrega tão perto que eu descreveria cada nota do seu hálito. Dizem que seu cheiro tem poder de me tocar tranquila, me deixar inteira.

O Estrangeiro daqui colhe narrativas pelo mundo com a ponta da língua e, quando ela toca seu lábio superior, é porque tem mais. Depois de coletá-las, ele volta pro ninho.

Em uma noite de nascer do sol, nós nos reconhecemos. Nem que fosse pra dar emoção ao enredo, não houve mistério. Ao contrário, as horas se curvaram e caminhamos por elas com presença. Eu vi que ele era forasteiro na mesma medida que tudo nele era nativo. 

Um de seus encantos, eu soube, é me transportar pra si. Eu, cheia de raízes, me fiz passageira e fui. Para me nutrir contadora de histórias, vi por ele narrativas tantas que imaginei culinárias, engoli florestas, olhei barulhos, pilotei ruínas. Viajei breve, intensa, entregue. Tive notícias do privilégio que foi ser eu e ele. A gente. 

A gente suporta.

A gente quer.

A gente gosta.

A gente supera.

Por caráter de lenda, não há começo. Dessa mesma natureza, por sorte, me confoto. 

A gente não tem fim.


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário