Coçou os olhos estrábicos e a armação dançou em seu rosto inchado. Dormira muito, por mais que a ansiedade da véspera estivesse constantemente alimentando sua esperança juvenil tirando qualquer sossego.
Correu para a ante sala e se sentou na cadeira da mesinha do telefone fixo. Ficou a enrolar a espiral do fio por seu dedo gordo. Esperou.
Poucos minutos depois, que pareceram décadas, a menina escorregou o corpo até que seus pés tocassem o chão frio. Ergueu-se num impulso. Passou pela sala onde tropeçou na perna que seu primo mais velho deixara lá de propósito. Não resmungou como de costume. Foi até o quarto da mãe e ficou olhando ela pinçar sua grossa e erguida sobrancelha negra enquanto olhava fixamente para o espelho redondo, como se não desse por nenhuma presença. Naquele dia, seu pai não ligou.
***
Os olhos de sua mãe, firmes, impassíveis, agora estavam vermelhos e inchados como poucas vezes vira em sua vida. Fortalezas sempre tão inabaláveis, eram agora sinal de que as coisas iam mal. Quis perguntar, teve receio. Logo a própria mãe viria contar entre soluços que o tio da garota, seu irmão mais novo e mais querido, estaria embarcando para um estado distante e que lá passaria a viver.
Brasil, cruel país continente, a vida levou seu tio numa noite etérea. Toda a família chorava em prantos no aeroporto quase vazio. A menina que crescera na mesma casa que ele, conhecia da saudade seu acre sabor, queria chorar mais que os outros. E chorou.
***
A menina batucava impacientemente os dedos na mesa da cantina enquanto o rapaz abraçava sua mochila preta. Ele possuía um cabelo louro tão liso que algumas mechas caiam sobre a testa. Seus olhos verdes se espremeram num sorriso escancarado, seu rosto estava vermelho por riso, ou por ser fácil demais ficar assim alguém tão branco.
E ele repetia o nome da menina uma, duas, cinco vezes. Gostava de vê-la irritada, ou talvez gostasse do nome dela.
Ele vivia num mundo todo autoprotetor e ela gostava de vez ou outra se sentir parte. Contudo, em sua maioria, se sentia incomodamente nervosa por não conseguir decifrar o órgão palpitante por trás daquelas piadas.
Tão nervosa por brincadeiras tolas, ainda assim ela sentia uma suave segurança vil.
Se esvairia.
Naqueles corredores cheios, o rapaz louro fazia as coisas não parecerem tão hostis. Era como se o centro religioso que ela visitava aos sábados e se retirava nos carnavais, estivessem contidos naquelas brincadeiras infantis. Amenizava o ambiente duro da universidade.
Um dia ele a avisou que iria mudar de curso, de estado, de rumo.
Meses depois, os corredores da faculdade estavam mais vazios, porem era maior o cheiro da solidão e dos cigarros.
***
Em três meses, provavelmente, seu namorado iria ser convocado para um concurso num estado vizinho. A escolha era tão simples quanto avassaladora: romper ou alargar a sua tolerância à distância.
Sina, ela pensou, é possível superar.
A menina atravessou rodoviárias, dormiu entre todos os buracos das estradas e esteve. Cumpriu o que se propôs: esperou telefonema, chorou no aeroporto, percorreu todos os corredores sozinha.
Compreendeu que o fim da espera depende de que uma outra chegue.
Nenhum deles voltou.