A visão cinza dos meus pés pelo corredor fazia um som de saudade. A poeira embaçava o assoalho, o rodapé, as paredes e a porta do meu antigo quarto. Entrei. Ele, obediente e silencioso, seguia meus passos como se não coubesse em si mesmo, enquanto eu, extensa, cobria todos os cômodos daquela casa.
Abri a gaveta do armário escancarado e um inseto repugnante, tonto, saiu em voo, bateu no chão, passou por ele e me avisou: era tarde. Os olhos do rapaz, enfim, mais a vontade se colocaram. Com um sorriso estreito acompanhou o animal que o ignorava empafiado.
- Mata. - Eu sugeri, tentando esconder a súplica.
Ele nada me disse. Agachou-se, observou com atenção o animal crescer de tamanho e tomar formas ainda mais torpes. Meu coração palpitou e eu quis implorar. Sua simpatia pelo monstro me assombrava, mas aquele lugar, de repente, não tão de repente, era simplesmente onde eu sonhava estar.
Levantou-se enquanto o animal se multiplicava em tamanhas formas e espécies, todas elas ascosas. Olhou nos meus olhos e toda graça que tínhamos em realidade, ali, em quimera, era seriedade que suspirava.
Eu suspirava enquanto segurava uma blusa repleta de bolor junto ao peito.
- Quantas vezes vai tentar se mudar pra mesma casa? - Ele disse enquanto empurrava uma caixa, enquanto empurrava um passado.
- É como se eu pudesse fazer de novo, fazer melhor. Eu quero salvar algo.
Ele olhou a blusa amassada que eu abraçava. Olhou nos meus olhos. Tudo dito, profundo. Não era ele.
- Resgate que te traz os mesmos vícios, que não te move de lugar.
- Que me trouxe até você. - Eu disse, enquanto desviava o olhar para os animais ao chão, correndo, apressados, silenciosamente histéricos.
- E é o mesmo que me levará embora. E eu estarei guardado em sua coleção de alegrias pequenas imersas em sofrimentos indispensáveis.
Senti imensa dor.
Concordei, e tudo ao nosso redor era um imundo confortável.