Não há um só turno do dia em que sua ausência não se manifeste.
É tolo pensar que a falta é um vazio, um buraco. Sua ausência é um câncer que punge, cresce, ocupa, traz à tona e contorna meu corpo todo de uma dor pesada.
Seria ainda mais ingênuo sugerir que essa manifestação cumprida se faça todos os dias, porque não há um só turno do sol no céu que não testemunhe minhas lembranças.
Você aparece de manhã quando rolo na cama que sempre foi vazia, mas que te prometia. Você caminha comigo a tarde até a academia que nunca entramos juntos, mas que por você eu faria. Você me acorda de madrugada pra ir ao banheiro e me lembra de lavar as mãos que não vão te tocar ao voltar pra cama.
Sua ausência não pode ser uma fenda oca porque ela invade meu léxico nas escolhas dos danados adjetivos, se põe na porta de todos os museus, desenha suas linhas em todo litoral de São Paulo ao nordeste. Sua presença ausente ordenha meu choro que não passa com os meses, vigia minha dieta, orquestra minhas transas, aumenta meus treinos, pergunta minhas novidades, desencaixa os meus beijos.
Revejo diariamente nossa última conversa como uma covarde autopunição. Para que eu sabia da sua capacidade de substituir minha falta por outras, para que eu não me esqueça de que minha ida é um pequeno vão enquanto sua ausência ocupa todos os meus espaços.
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