segunda-feira, 22 de junho de 2015

À beira do abismado


... e de novo vem e me conta do abismo em que te tornou sua morada, da gélida impossibilidade de agarrar-se em algo que te supra e te contenha. Fala-me de dor e de nada, não fala nada e me toma assim e me leva para histórias ou caminhadas sem fim, onde não há verde nem é claro. Meu sol não transpõe suas nuvens. 
Imagino-te então resignado e só, caindo com vento que bate em seu rosto, esse mesmo rosto que me olha de olhar claro e verde, mas que desvia sempre que sente que meu olhar torto te despe. 
Afasta-te assim, não sei pra onde, talvez para esse mesmo lugar onde se encontra sempre, à beira do abismo solitário, onde eu não penetro. 
Como não te penetro agora. 
Mas quando você se afasta é que te olho detalhado. Nunca saberá como conheço cada milímetro das impossibilidades traduzidas por seus muitos silêncios. Também suas poucas falas. Relatos sobre tias, cirurgias, infância memoriosamente fotografada e tudo que me conta, pensando, suponho, que é seu jeito de dar-se a mim. Percebo que se esconde ainda mais. Como, se se entregando a mim, negasse a possibilidade de te refazer sozinho. E cada vez ouço mais atenta essas histórias que me enredam no que não é você, mas o que você fora. 
Como uma criança tola que não se conhece e não te conhece, tento fugir a cada noite angustiosa temendo pecados, punições pelo que sou e desejo e te desejo tanto, por vezes, tento prometer-me nunca mais ter-te tão mentirosamente próximo, mas é tão verdadeiro seu toque em mim, 
Escapo então em palavras ditas seguras de que te entrego convicta, de que te entendo, e te respeito e te tento fazer compreender que não é assim, Tenho medo cada vez maior do que venho sentido todos esses meses e  há apenas uma unica certeza: dor maior é ver-te longe, no abismo que enxergo turvo porque só se mostra a você e não se soluciona! 
Contudo, volto e volto sempre. Então me toma outra vez com as mesmas regras e, eu, embora supondo conhecê-las, me deixo invadir inteira por você, que me faz completa. Compactuo, então, com seus medos que não decifro, aceito-os como faminta que sou da sua presença. Fico entre os melhores beijos e as menores palavras, entre o cheio copo dos amargos sucos e a sua geladeira vazia totalmente penalizada por sua vida traduzida nesses seus olhos. 
Olhos tão lindos que não se debruçam verdadeiramente sobre nenhum outro, assim como não se debruça nos meus, temendo a mostra, a pedra, o gume das suas histórias longas, das suas memórias boas cheias de corredores mofados pelo seu abandono, onde há moças com a minha idade quando você não tinha a sua, molecagens em ruas, risadas e picolés em bocas de lobo e concluo que eu tornarei sempre a voltar porque preciso ser tomada por todos os seus poucos relatos, seu corpo pesado, seu ombro largo, sua presença, você. 
Choro sempre quando nossos dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando meu perigo aumenta e, sem me conter, estou sempre prestes a te assaltar feito um vampiro faminto pra te sangrar e te deixar mudo, sem nenhuma história a te esconder de mim. 
E, assim, meus dentes penetrando nas veias da sua garganta arrancariam essa vida que você me nega delicadamente cada vez que me procura e me toma. 
Entretanto, me enveneno mais quando você não vem e ninguém então me sabe parada tentando achar meu antigo sol escurecido pela sua ausência. 
Eu me anoiteço mais agora que você não vem me tomar, me arrancando de mim, desguiando-me por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra sua tento desesperada encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde você já não me desvie os olhos, onde seu toque não fosse passageiro, onde se detenha mais demorado sobre isso que sou e pense, quem sabe, que te aceito e me aceite também por mais que um fim de semana.
 Tudo para que em uma próxima noite eu não me encontre outra vez insone, recompondo sozinha em minha mente um por um dos seus traços, seus pelos, seus olhos que hoje se encontram arregalados no abismo e que sonho voltados para mim. 
Otimista, imagino eu também que esse abismo pode não ser mais tão escuro quando me coloco a sua frente, ao seu lado e me sinto serena com a leveza que me pede e me perde tantas vezes e ainda assim eu volto à beira do abismado. Seria, eu presumo de tanto imaginar, senão mais claro, ao menos um abismo mais verde de tanto que seus olhos emprestam atenção a eles. 
Quando meus olhos tortos e agora tristes se vêem longe dos seus, dentro de mim guardo sempre seu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, planejamento ou desvio, não importa, estamos tão enredados que seria impossível que eu recuasse só para não ir ao fim desse abismo que é estar a beira das suas vontades. 
Vou até o fim e voltarei sempre a isso que nunca vivi antes. 
Talvez inúteis sejam as minhas insônias e esperas, ardentes e loucas invenções noturnas.
Sem saber outro destino, lentamente você cai. Lentamente eu falo. Lentamente você cala. Lentamente eu aceito e o abismo nos afasta e nos aproxima e sabemos que tanto ele quanto a minha espera, quanto nosso laço torto como meus olhos e claro como os seus, quanto suas histórias e as nossas histórias não acabam assim 
nem agora 
nem aqui...   

(Paráfrase: À beira do mar aberto - Caio Fernando Abreu)

Nenhum comentário:

Postar um comentário