terça-feira, 9 de novembro de 2021

Parto

     O princípio se finalizou no anúncio: eu estava parindo. A cena me olhou, eu estava alheia

- É parto normal. - Alguém disse e eu posso assegurar: não havia nada mais estranho.

- Eu não quero dor. - Eu precisava de uma garantia.

Ele segurou a minha mão e não me viu. Olhava minha pelve ansioso como quem aguarda uma impressora arremessar sua produção.

- Não vai doer. - Ele mentiu.

E não doeu.

A criança berrava um choro breve. Queria dizer que estava viva, mas não queria me incomodar. Eu a segurei. Seus olhos fechados me escondiam um recado e indicavam uma serenidade que eu não achava em mim. 

“Por que não sinto dor? Onde está a minha dor, criança? Até isso você vai tirar de mim?”

Outro momento se fez. Eu me sentava em meio a uma aglomeração de vozes femininas. 

- Ela está com fome, tadinha. 

- Você tem que colocar o seio na boca dela. 

“O meu seio?”

- Ela se chama Manu.

“Quem é Manu?”

- Você tem tanta sorte. Tão quietinha, tão meiga

As outras mulheres se viam, viam Manu. Ninguém me via. Coloquei o meu seio na boca de Manu como se isso fosse justo. 

- Vai doer, - Eu gemi enquanto aqueles olhinhos fechados abocanhavam o meu. - Eu não quero que doa.

- Não dói não, é bom. - Elas mentiram

E não doeu.

- Eu não tenho leite. - Eu disse, enquanto a boquinha dela sugava e um líquido branco surgia, para meu horror.

Eu pensei que não ia suportar, foi quando ela abriu os olhos dele. Depois de tanto esconder em fechadura, Manu me escancarou o verde e grande óbvio: Ela era dele.

Então usei os meus olhos para procurá-lo. 

- Os olhos dela. São. Parecidos com os seus - Eu disse. Pausadamente. Para que não houvesse dúvidas. Para que ele me visse.

E ele não me viu

- São os olhos do papai, né, filha? - E ele estendeu os braços para Manu.

Ela e ele se uniram num abraço completo.

Eu procurei a dor e nem isso eu tive.

Acordei vazia. 


(19/04/2021)

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