O princípio se finalizou no anúncio: eu estava parindo. A cena me olhou, eu estava alheia
- É parto normal. - Alguém disse e eu posso assegurar: não havia nada mais estranho.
- Eu não quero dor. - Eu precisava de uma garantia.
Ele segurou a minha mão e não me viu. Olhava minha pelve ansioso como quem aguarda uma impressora arremessar sua produção.
- Não vai doer. - Ele mentiu.
E não doeu.
A criança berrava um choro breve. Queria dizer que estava viva, mas não queria me incomodar. Eu a segurei. Seus olhos fechados me escondiam um recado e indicavam uma serenidade que eu não achava em mim.
“Por que não sinto dor? Onde está a minha dor, criança? Até isso você vai tirar de mim?”
Outro momento se fez. Eu me sentava em meio a uma aglomeração de vozes femininas.
- Ela está com fome, tadinha.
- Você tem que colocar o seio na boca dela.
“O meu seio?”
- Ela se chama Manu.
“Quem é Manu?”
- Você tem tanta sorte. Tão quietinha, tão meiga
As outras mulheres se viam, viam Manu. Ninguém me via. Coloquei o meu seio na boca de Manu como se isso fosse justo.
- Vai doer, - Eu gemi enquanto aqueles olhinhos fechados abocanhavam o meu. - Eu não quero que doa.
- Não dói não, é bom. - Elas mentiram
E não doeu.
- Eu não tenho leite. - Eu disse, enquanto a boquinha dela sugava e um líquido branco surgia, para meu horror.
Eu pensei que não ia suportar, foi quando ela abriu os olhos dele. Depois de tanto esconder em fechadura, Manu me escancarou o verde e grande óbvio: Ela era dele.
Então usei os meus olhos para procurá-lo.
- Os olhos dela. São. Parecidos com os seus - Eu disse. Pausadamente. Para que não houvesse dúvidas. Para que ele me visse.
E ele não me viu
- São os olhos do papai, né, filha? - E ele estendeu os braços para Manu.
Ela e ele se uniram num abraço completo.
Eu procurei a dor e nem isso eu tive.
Acordei vazia.
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