sábado, 29 de junho de 2013

Carta de amor.


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas

Álvaro de Campos


Belo Horizonte, 13 de Junho de 2013
          ...,

A data é simbólica. Marco aqui exclusivamente o momento em que resolvi te organizar em grafite. Unir o que penso, o que sinto, o que já escrevi e o que provavelmente eu nem havia conseguido constatar antes.

Imagino que nesse instante esteja passando algumas coisas em sua cabeça, coisas específicas. "Por que uma carta e por que agora?" "Por que um poema na abordagem da carta?" "Ai meu Deus, é uma carta de amor?"

Lamento não poder solucionar suas indagações de maneira abrangente, clara e satisfatória. Talvez seja possível, mas se não for, compreenda. Escrevo no mais espontâneo que me ocorre e, como diria um amigo em comum, minha escrita é liquida. Só espero que umidifique você.

Ainda que eu não consiga dizer com nossa voz escancarada "É uma carta de amor!" negar é um absurdo que não posso cometer.

Nunca escrevi uma carta de amor e é chegada a hora. Entenderá porque não há momento e remetente melhor.

Sem saber quando exatamente te entregar, nem como ou o que realmente são esses escritos, peço que perdoe qualquer teor estúpido que ela alcançará. Escrevo a você por desabafo e por arte, mas também por absoluta convicção de que você entederá cada traço e que ser ridícula ante a alguém tão semelhante é quase uma dádiva.

Há a possibilidade de que você se prenda num xadrez tecido em minhas linhas pautadas e que isso simbolize minha libertação. Caso tal sorte não se manifeste, vibro que, contudo, a seguinte profecia se dê:

Não um convite, mas uma intimação, venha você nessa vivência (fora tão só minha) que compartilho ser antes conhecido, depois amigo.

Agora personagem.

_____________________

A fumaça saia por seus lábios e ia pela avenida em espiral. Também era meu pensamento, seu peito e a ponta do meu cabelo.

Eu cruzava meus pés, torcia meus braços e ouvia seus casos enquanto embrulhava os meus.

Cada trago seu era um segredo nosso. Cada sopro um desespero meu.

Quantos giros meu estômago deveria dar até que o medo de te perder por carência cega me colocasse aos seus pés, te levando de mim? Quantos pedidos de socorro seus eu converti em súplicas internas para que você me deixasse te socorrer?

Você batia o indicador na ponta do cigarro e minhas chances caiam acinzentadas na calçada.

E eu não sabia, nem sei distinguir o que mais temo. Talvez eu não tema nada mais que o medo de virar um caso que sua voz rouca tende a contar num desabafo corriqueiro.

Não quero ser lembrada de maneira confusa por coxas como de outras moças, já conheço da dor antes que me mostre com o acre da sua vida.

Eu não quero ser esquecida.

Entretanto, você é o único cara se eu já quis de todas as formas imagináveis. Quis-te por perto, abraço apertado, irmão num laço de afeto, em confidências, numa roda de violão. Numa gargalhada estridente, no meu travesseiro e a quilômetros de distância do meu peito. Quero você de qualquer jeito.

Não te amo a mais, mas te amo. Não digo que é certo, seguro ou concreto, pode ser carência (claro que é) que me impede de tentar não sentir seu cheiro. Quando tabaco, meu amigo, sem repúdio, também já quis estar entre seus dedos.

Afrouxe toda essa tensão. Você se dá bem com essas situações. Enquanto você inaugura tantas coisas nessa jovem moça, sou mais um acontecimento que você acarretou por ser carinhoso demais? Por ter uma energia sexual aflorada demais? Pobre criatura pecadora! Qual pobre serei eu, criatura iludida?

Ora, poupe-me! Mas claro que está tudo maximizado pelo ato de escrever, ou por minha ingenuidade juvenil. Quem se importa?

Não há explicação docemente lógica ou coerentemente emocional que tire meus pensamentos das minhas esporádicas vontades de te consumir com os dentes.

Como são surreais e estúpidas as minhas lembranças em letras tortas!

E eu queria que aquela avenida Contornada de você e seus tragos (tão necessários) se fizessem destino a qualquer que fosse a desculpa espiritual (o perdão a mim mesma por ter deixado acontecer).

Aconteceu no sítio e lá eu me proibi de desejar a sua existência maior em mim, pois que era um pecado eu te sentir daquela forma. Antes você fosse aquela forma.

Antes fosse um amigo alegre com musicas a tranqüilizar os anseios da minha alma, com um relacionamento que, a mim, numa distancia segura, era estável.

Mas estranho seria se eu não me apaixonasse e não me permitisse àquele som rouco ao telefone, àquele entre cigarros na avenida de nós dois. E no bando de trás do carro eu colava meu ombro no seu pra ver se colava seu problema em cima do meu e nós nos salvávamos porque atender aos seus pedidos de ajuda eram impulsos que eu sentia na parte externa da minha pele.

Naquela tarde, tive a convicção de que eu tinha que parar. Não havia possibilidade salvável nem na mais remota circunstância. Não era um conhecido que eu nada tinha a perder expondo minhas paixões prematuras. Era um irmão que eu não estava disposta a perder nem atribuir a ele uma saia justa que mesmo com todo o jogo de cintura, talvez ele não pudesse desnudar.

Foi um processo. É um caminho. Primeiro o susto, a sintonia, o sentimento, a aproximação, a diminuição consciente da alimentação, e a avenida que foi o inicio do encerramento de toda essa insanidade que me vinculei.

Pequena situação, talvez tão menor quanto rápida. Por que quero você ciente?

Se nesse domingo (22/06/13) termino essa carta logo na semana em que você me lançou numa maravilhosa abstinência de sua energia que me consome e me coloca, mesmo que por amizade, num ímpeto de cuidar, é porque chegou o momento de eu te desejar da melhor forma possível. Meu amigo, meu companheiro e meu anjo mais velho.

Pareceu que o tempo todo te quis entre minhas pernas?

Que ótimo! Mecanismo artístico e divino para que essa vontade, que não era a maior das sensações que por você eu senti, ficasse focada e guardada nesse papel fino.

Esse personagem vai me libertar de tudo que criei desnecessariamente.

Tenho grande apreço pelo que sinto, então registro como forma de não esquecer.

Aqui, no mesmo xadrez das minhas letras apaixonadas, deixo preso e eterno esses relatos, para deles me livrar.

Que eu compreenda meus impulsos.

Aprenda a amar.

Não me prenda a nenhuma forma de culpa ou vergonha.

Obrigada por todo esse carinho, amizade e aprendizado que vem me proporcionando. Saímos do personagem, volvemos à realidade.

Veja que sorte a sua! Ainda assim, eu realmente, amo você,

Giovanna Parreiras.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São, naturalmente,
Ridículas)

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