sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Eu, vaso

Com movimentos certos e firmes de mãos, ele parecia um escultor que pacientemente molda um vaso de barro. Eu lisa, morena, escorregava. Minha boca se entreabria em súplica por ser beijada.

Minha blusa suspensa? Estava. Onde estava? Eu já vinha há anos me despindo, peça a peça, letra a letra. Toda a minha alma a ele, reconhecida. Era ele quem me criava.

Eu de repente, produto de fatores, escada. Eu era o resultado de todo o bem que ele me proporcionava. Eu sou tentativas múltiplas de escritas, borracha. Sou insistência. Qual verbo é suficientemente sublime que o caiba?

No seu abraço largo, íntimo, eu sou tudo. Sou dele como jamais consegui minha. Sou tão entregue que tenho medo de ser devolvida. Sou um amor tão sincero e antigo que sua permanência me enche o ânimo, me torna plena, me faz suprida.

Eu o amo e sinto a sorte por, ainda que sem perspectiva de romance, poder dizer que realmente o amo. E com amor, por amor, hoje sou um vaso mais bonito. Seja no corpo ou no espírito, no suspiro silêncio ou no ofego dito, agradeço eternamente por cada segundo que ele me tenha esculpido.

Um comentário:

  1. Giovanna
    Sou apenas um biólogo, sem o conhecimento exato da literatura, mas parabenizo-a pelo trabalho. Cláudio.
    www.verevida.blogspot.com

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