quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Uma terça qualquer

Então eu fiquei lá, estática. Não por ansiedade ou nervosismo, era só constatação. O pulsar de meu peito e minha respiração disforme eram devidos à caminhada que me pôs naquela rua íngreme e escura diante dele. A entrada iluminada, ponto de luz no vazio, era também vazia, comportando apenas seu corpo e o silêncio que ele produzia.

Sentado, cabeça baixa, ele estava a uma distância de pouquíssimos metros de mim.

Pude analisar sua roupa, sua barba e seu jeito alternativo. Pude fazer perguntas a mim mesma, sorrir involuntariamente. Pude, enfim, suspirar.

Quando voltou sua cabeça em minha direção e senti seu olhar sorridente pairar em meu corpo, a surpresa foi justamente a falta dela. Um abraço e lá se foram cinco meses.

Nada do que esperei. Nenhum alívio ou dissipar de saudade. O que aconteceu foi anulação do tempo. Como se aquela situação me fosse corriqueira porque, de certa forma, eu o guardava todos os dias. Estranho pensar que até quando eu me orgulhava por ter esquecido, eu o estava cultuando dentro de mim.

Agora eu me via sentada ao seu lado. Atenções que pairavam entre o palestrante e a dúvida se, por canto de olho, eu estava sendo observada. Ao projetar seu corpo para frente, era entre minhas lembranças certeiras tão aproximadas e meu desejo de parecer tirar a linha preta que descansava no branco de sua camisa quando, na verdade, queria apenas medir seu calor com o meu polegar.

O problema talvez seja sua gentileza excessiva que me confunde e castiga ou seus sinais que tal podem ser más interpretações qual alegrias suntuosas. Seu cheiro neutro tão leve quanto o jeito que piscou pra mim ou os pingos de chuva batendo no vidro do carro enquanto nós poderíamos ser apenas dois amigos sem perspectivas amorosas.

Se não fosse por mim. Eu e minha forma de eternizá-lo. Minha gratidão eterna pela temporada das flores que me chamou com as cores que produziu e a minha certeza de que não importa quantas lacunas sua ausência faça, nem todas as dúvidas que planta no meu coração de menina se fazendo cabeça de mulher. Não importa ainda quais sejam suas intenções. Sempre que eu olhar pra ele terei aquela sensação de que o tenho, ainda que não o possua de fato, o tenho porque realmente o quero ter em todo e qualquer aspecto da minha vida.

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